sábado, 18 de dezembro de 2010

Rua da frente

Por entre as janelas, vejo dor
Fecho as próprias, tenho sonhos
Azuis candelabros dão o tom às árvores
O burgo permanece morto
Telhas de cerâmica não me deixam ver o céu
Bonecas de madeira escoram essas nuvens
Ecoa o som, as pessoas são penipotentes.
Lamento por essa água amarela
Por esse jeito turvo de viver.


Cream - Disraeli Gears - 1967
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Procela

A última gota cai por sobre o copo,
Saturado até a borda, derrama-se sobre
O fino e cortante cristal, se esvai, escorre
Logrado pelo instinto natural de cada semelhante, tentando encontrar
O mar, ou um mar de infinitas correntes, marés e ondas
Procura a severidade e sinceridade das supostas procelas,
Percebe o estar sobrando, faltando, angustiosamente, argutamente...
Não cabe nos cantos quadrados de quartos mortos
Espedaçado, soldados os cacos da união indecifrável hieróglifo
Mísero o tempo, pedaços de sangue, litros e litros de corpos,
Frios, próximos, solitários, seres ou coisas?
Pensamentos vagos fazem o seu papel
Confundem, difundem, esfumaçam o cristal
O mar parece mais longe, longínquo sonho
O solo a suga, a seca, a míngua
Até o momento em que ela cai da mesa.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

22 de setembro

O nascer do sol n´outro horizonte,
Uma luz a iluminar as crateras por onde piso
A sensibilidade dos cristais, das chapas de aço
Um momento estático defronte luzes e guilhotinas
Papeis, solventes, cadáveres, duendes perturbadores
Tudo para colorir, tanto o verso como antiverso
Policromia, transparências, provas de inexistência
O doce cheiro das flores de papel,
Universo paralelo, amarelo, anil, rubro...
Negro.

CONTOS
Nesse momento, o passo
Desse fragmento um pedaço
Conserto o concerto, torto, estreito, peco.
Potes, vasilhames rachados em cacos
Sonhos vastos e damas ilustres
Desconhecidas
Num dia cinza encontrar a beleza
Que no frio, n´algum deserto
Prossegue entre as corcovas.
Em todo esse sentimento
Sem partes, inteiro e incompleto
Repleto de ar, de gases voláteis
De impossíveis planos ardilosos
Para a minha arguta fantasia
Sem palavras ou livros
Sem memórias, sequer histórias
Prossegue nesse eterno retorno
De fábulas e odisséias

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Expresso do Oriente



Nesse momento em que os ventos corroem minhas sensações
Meu aposento sombrio e medíocre, torne-te um agridoce lar
Entrego-te meus prantos em palavras, mantras e orações
Corrigindo cadências fúnebres e progressivas, ao léu, à voar


Lamentos por supostas derrotas e desistências
Criam incógnitas percepções, do cadáver de olhos abertos
Flagelado, desgraçado, totalmente, o escudo de resistência
Faz-se agora seguir o compasso dos onomatopéicos versos



Nesse mundo em testes, sem alvoradas ou crepúsculos
Talvez correto, não mais que justo, até quando ou quanto
Lembranças mostram vidas, tempos, seres sem escrúpulos



Formando-te de essências, cobrindo-te com fino manto
Levando-me embora, sem aguardar sequer o pós-pasto
Desse prato fino, rico em especiarias, e dores, e fim.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Alegria

Sorria palhaço!
Pois sou o bôbo
Que faz o seu nariz
Tão vermelho
Me perco entre letras e palavras
De P à R
Chega!
O palhaço é você!
Que ainda está
Na minha parede!


Download -  Kiss - Psycho Circus
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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Luz para poucos

Logo vai escurecer e não veremos nada além na escuridão, não veremos o samba e não seremos Veloso, nem muito menos democratas, cristãos ou sequer comunistas, seremos o que sempre fomos santamarenses sofredores por natureza santamarense.
Aproveitaremos a penumbra para nos orgulharmos de artistas e anões, de fantasmas e casarões, de sermos escravos e de ainda termos barões, afinal esse é o lugar mais brasileiro que existe um paraíso para “descobridores” que vem catequizar a população por alguns reais por semana, população na maioria das vezes culpada pelo seu próprio latrocínio, culpada por desconfiar de todo e qualquer cidadão santamarense que fale, declame ou proteste, talvez por isso amarguemos até hoje o doce sabor do chumbo.
Ao mais longo prazo, criam-se punhados de intelectuais ou aproveitadores (como preferir) que dizem amar nossa cidade em suas músicas, entrevistas ou em seus programas de TV, sensibilizando-se sempre com a condição precária de vida de seus primos, parentes, conterrâneos, ao buzinar de dentro de seus carros. Ao mais curto prazo vemos chegar ao estado de cidade grande a nossa violência, assassinatos, assaltos, furtos, ações policias em vão, ações municipais muito mais em vão, enquanto a população cresce da forma mais desordenada possível e cria-se um decreto para que não se construam casas de taipa.
Em verdade nossa cidade está em um quase eterno coma alcoólico, desde a época dos engenhos, passando pelos alambiques e chegando a idade contemporânea em que há o predomínio dos bares espalhados por toda cidade, olhe e verá as passarelas do álcool, poucas são as ruas em que não existe um bar e onde não existir um bar com certeza vai existir um bêbado.
Chegando a noite cansados de trabalhar, cansados de beber, cansados de ser santamarenses, quase vivos, iremos para nossa casa e amanhã faremos tudo de novamente.

sábado, 1 de maio de 2010

ONTEM


Pressinto tudo o que tenho
Sigo do cume à última instância,
Volto ao ápice.
Corpos escravos de espíritos,
Escravizados pela mente, que mente
E atua,
Que necessita de atores
Por torres, que odeiam amar-te, que vão embora
Embora sempre estejam a te olhar e desejar
Odiar-te
Mancham teu sangue, se afogam nas suas palavras
Perdem-se nos seus hiatos e te sufocam
Na própria e ínfima satisfação

sábado, 24 de abril de 2010

Corpo presente


Tudo o que tenho são lembranças
Soldadas às grades do passado
Preso, encarcerado, dilacerando as memórias
De uma alma suja e cega, vivendo de instantes reflexos
Desconexos talvez;
Traições, paixões, desilusões.
Ao sol desejo uma bela chuva, para mim, a noite turva
Como as lembranças mais recentes...
Deixe-me aqui na minha vida monocromática!
Estática, prática, tática, tácita, esporádica
Como a rotina afiada em paralelepípedos tortos
Ah... Se por aqui houvesse portos, de que se valeriam os copos?
E os corpos? Suariam com medo da cidade
Renegariam sua liberdade, sorririam sem a mínima vivacidade,
E se trancariam nesse passado, inglório, ilusório, simplório e caótico.

Metassalpicos


Quando subi na cadeira
Para tirar a poeira dourada do vento sudeste
Do parapeito da janela
Vi no espaço recortado entre as barras de tungstênio
Que passa por abertura
Duas andorinhas pairando alegremente no ar do crepúsculo
Ora pegas ora soltas pelo brilho da terra moribunda
Como folhas do céu infinito paradisíaco eucalipto
Livres, livres, livres
A adernarem e se importunarem entre fogo e sonho:
E há vida no metabolismo olho e vôo
Em torno do rodopio enfumaçado
Minha amiga, minha irmã, minha mulher –
Cada hora desde o primeiro sinal
Tem sido um ritmo de dar e receber.


Extraído do livro Breytem Breytenbach – Confissões verídicas de um terrorista albino






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Maçãs de terça-feira

Existem objeções que não posso fazer
Apesar de ouvir, não posso dizer
Posso sentir, mas, não amar
Tentar, atentar, e não tocar
Pois de resto há desconfiança
Esquecida no tempo volta como herança
Num momento, paro, penso, escolho
Refugio-me no meu entrefolho
Como uma tênue tempestade
Torno-me um cataclismo.
Semana Laranja


Todos os estigmas necessários...
Cubos de gelo, copos e blends
Calor, vazio, cores-aromas
Nomes, vozes, melodias o silêncio
Olhares, lábios, abraços e ódio
Pinturas, arte, frases ao léu
Promessas, dívidas, demônios e desencontros
Encontros, ilusões, miragens e o deserto
Saio à chuva com o sol (só)
Por fim solidão

sexta-feira, 26 de março de 2010

Purificação


Ao fim da noite os sinos dobram
Ao suave som, memórias retornam
Equalizo possíveis e futuras sílabas tortas
Ao nostálgico e sonoro mentalizar das revoltas
Perdidos na distinta humanidade
Na loquaz e silenciosa cidade
Vazia, vadia, tardia felicidade
Da opaca e até trágica eternidade!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Hollywood Red

Dividido e culpado

Volto a dormir entorpecido.
Grito quando é dia
Amanhecendo negro entre as cores da vida.
“Hatful of hollow” Segue essa trajetória submersa
Copos vazios, alma lacrimosa
Juras de eterna afeição,
Nas ilusões e desvios do comportamento.
Flores vermelhas cortando a noite
Velas acesas no cemitério impuro
Juro ser útil à palavra,
Ao inutilizar o meu perfeito estado.
Dividido e culpado
Coroado, corroído
Cuspindo a excreção do cigarro
Hoje: Devo ter dormido durante horas.
Leva nos seus braços
Meu abraço transtornado
Meu olhar fora de foco
Meu fino comportamento diante de todos
O abismo que se abre agora:
Não, não é coisa nova
É um velho de barba e cabelos grisalhos.



Bruno Muniz - escritosopacos.blogspot.com

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mares e portas

Podia pensar em
Perder o último trem,
O último gole
Talvez a última linha...
Junto à ressonância do som das ondas
Ao tom do vento, entre muralhas
E mares, fazendo-se presente no vácuo
Junto à corrida pela tranqüilidade
Faz-me refletir e reencontrar-me
Num paraíso eqüidistante.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Colombina

Ressurge ao cume das atenções
A expressão de pesar e o olhar písceo
Da dama que não está de vermelho,
Por momento acredito na luz que emana de seu sorriso,
Por um segundo sinto o erro
Já que o espaço que outrora
Fora dedicado aos pássaros está sob meus pés
“Gradiva” poderia chamá-la, pois segue em frente
Num compassar de passos hipnóticos, não sei
Se pela força da minha fraqueza ou se
Por mais um lapso noutro momento cético.
Cego!
Mas não perdi a sensibilidade, pode ser
Um fetiche, pode ser o que já não
Existe, mas seu olhar denota, exporta, transporta
Uma certa sensação errônea de abstinência
Quem seria àquela hora com aqueles gestos
Tão simples e por isso tão notórios?