quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Procela

A última gota cai por sobre o copo,
Saturado até a borda, derrama-se sobre
O fino e cortante cristal, se esvai, escorre
Logrado pelo instinto natural de cada semelhante, tentando encontrar
O mar, ou um mar de infinitas correntes, marés e ondas
Procura a severidade e sinceridade das supostas procelas,
Percebe o estar sobrando, faltando, angustiosamente, argutamente...
Não cabe nos cantos quadrados de quartos mortos
Espedaçado, soldados os cacos da união indecifrável hieróglifo
Mísero o tempo, pedaços de sangue, litros e litros de corpos,
Frios, próximos, solitários, seres ou coisas?
Pensamentos vagos fazem o seu papel
Confundem, difundem, esfumaçam o cristal
O mar parece mais longe, longínquo sonho
O solo a suga, a seca, a míngua
Até o momento em que ela cai da mesa.

Um comentário:

Alessandra disse...

Lindo...
O coração da sensibilidade.
A arte nas palavras...